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From: "Ricardo Costa de Oliveira" <>
Subject: Gomes Galhardo, Patriarca de Milhazes ?
Date: Sun, 25 Sep 2005 09:59:40 -0300
Eu sempre tive interesse em saber quais seriam as prováveis origens européias da minha família. O que para os imigrantes é coisa banal, para nós, brasileiros antigos, é tarefa complicadíssima. Como eu sou de uma família muito antiga do litoral do Brasil Meridional, uma das mais antigas no Sul do Brasil, isto sempre foi tarefa muito difícil. Somos brasileiros há tanto tempo que nos esquecemos por completo que o nosso primeiro patriarca veio de outro lugar. Eu tenho atrás de mim sete homens nascidos no que passou a ser Santa Catarina, uma vez que a minha família é mais antiga do que a criação da Capitania de Santa Catarina, em 1738 !
Quando os primeiros registros paroquiais se interrompem, em função da destruição ou extravio dos livros e assentos mais antigos (o que é comum no Brasil), é preciso aprofundar os estudos sobre a história local na recolha de mais dados. O nosso primo Antonio Roberto Nascimento, no seu esforço da "Genealogia Francisquense", extraiu o possível da Igreja de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco do Sul. É necessário ir adiante. Informações sobre uma comunidade e documentos administrativos e judiciais representam a alternativa remanescente. Encontrar uma pessoa procurada em documentos coletivos, assinando como testemunha ou em petições, é um passo importante porque pode revelar a idade aproximada dos depoentes e subsidiar possíveis identificações em hipóteses onomásticas, com pelo menos um critério metodológico mais substantivo do que a simples homonímia (a genealogia onomástica é a principal ameaça à genealogia empírico-documental. O principal problema da genealogia homo!
nimesca é que ela desconsidera as mudanças de nome e de condição social, apagando e ocultando com isto as mudanças sociais e geográficas dos deslocamentos sócio-genealógicos.
Pela análise paroquial em São Francisco do Sul, atual Norte de Santa Satarina, vila bandeirante-vicentista, constatamos que o genearca da extensa e antiga família Gomes de Oliveira foi o Capitão Manoel Gomes Galhardo. Coincidentemente na mesma época, havia um Amador Gomes de Oliveira na diminuta vila, natural de Lisboa. Sem os registros paroquiais, uma genealogia homonimesca apontaria este indivíduo como o genearca da família Gomes de Oliveira e encaminharia a pequisa para o caminho completamente errado, apenas pelo fato de se supor que o mesmo nome é condição para filiação.
Pela análise documental realizada em documentos no Arquivo Público do Paraná (DEAP) constatei que eram dois indivíduos com o nome de Manoel Gomes Galhardo e retirei as datas declaradas por eles na condição de depoentes em processos administrativos, judiciais e de genere. Um nasceu por volta de 1718 e o outro nasceu por volta de 1689.
Consultando o índice da Chancelaria na Torre do Tombo apareceu apenas uma referência a uma família Gomes Galhardo (nome incomum), coincidentemente na mesma conjuntura daqueles encontrados em São Francisco do Sul, no início do século XVIII. Outra coincidência é que era um registro de cargos ligados ao Brasil, especificamente ao Rio de Janeiro, "Sul" do Brasil. Depois de alguns anos, novamente solicitei a um amigo pesquisador que nos ajuda desde o início, António Forjó, para mais um lance arriscado, tentar localizar o processo matrimonial deste Pedro Gomes Galhardo em Lisboa, citado na documentação da Torre do Tombo, sem nenhuma indicação de sua origem por lá. Por sorte os sumários matrimoniais de Lisboa são "organizados" e depois de algum tempo o nosso grande colega repassa a informação de que Pedro Gomes Galhardo casou em 1709 em Lisboa, com 25 anos, tendo viajado para o Brasil algum tempo antes e que a sua família era natural de São Romão de Milhazes, Termo de Barcelos,!
Braga, Minho, Portugal. Agora eu tenho o nome de Antonio Gomes Galhardo e de sua esposa Maria Francisca, pais de Pedro Gomes Galhardo.
O próximo passo é tentar localizar em Milhazes um Manoel, dos Gomes Galhardo, batizado por volta de 1689/1690, para ver se consigo um indicador empírico para subsidiar a confirmação de que o Manoel Gomes Galhardo em São Francisco do Sul poderia, eventualmente, ter parentesco em Milhazes com o Pedro Gomes Galhardo e com o Antonio Gomes Galhardo.
Curiosamente a família estabelecida por Manoel Gomes Galhardo, em São Francisco do Sul, era de lavradores (no Brasil passaram à condição do senhoriato escravista, até o fim em 1888), com uma cultura mais ligada ao meio rural e à agricultura, o que poderia corresponder exatamente à cultura agrária dominante do Minho, um apego à velhas raízes agrárias e que hipoteticamente poderiam ter se transferido do Minho para o interior da Baía da Babitonga, na nova e grande sesmaria das Areias Grandes, por si só maior do que toda a pequena freguesia de Milhazes. O Minho, bem como o Norte de Portugal, era o formigueiro humano que garantia a demografia do Império de Portugal, exportando gentes ao longo de séculos, exportando tradições e cultura para novas terras a serem conquistadas e colonizadas.
Ainda estamos no campo das hipóteses, mas este poderia ter sido um deslocamento rural-rural, do Minho para o Norte de Santa Catarina, do Reino para a Conquista (nome antigo de uma localidade do Rio Areias Grandes). Na verdade era uma passagem de uma parte do país para outra parte, do Minho, Reino de Portugal para o Estado do Brasil. O fato é que tenha sido qual for a origem do Capitão Manoel Gomes Galhardo, a família Gomes de Oliveira teria mais quatro homens naquele fundão da Baía de Babitonga, até que com o estabelecimento da Colônia Dona Francisca e Joinville eles passaram novamente de uma parte da sua região (do Rio Paranaguá-Mirim) para outra ponta (Rio Cubatão) das mesmas terras, que eram muito conhecidas e familiares há várias gerações. Eram gestores políticos em São Francisco do sul e continuaram em Joinville. Somente no final do século XIX é que a família se urbanizaria e ganharia novamente o mundo no século XX.
Vamos ver o que Milhazes tem a falar, deixemos os documentos falarem.
Bom Domingo
Ricardo Costa de Oliveira
Curitiba25/9/2005
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